Ronaldo Fraga, Bombril e Cadiveu: o que eles têm em comum?

No ano passado, a parceria entre a marca Bombril e o Programa Raul Gil no concurso “Mulheres que brilham”, criado para revelar novas cantoras da música brasileira, trouxe à tona mais do que vozes, trouxe também o racismo entranhado.

O logo criado para o concurso ofendeu grande parte das mulheres negras ou de cabelos crespos, pois parecia sugerir a comparação com a palha de aço fabricada pela empresa. O perfil de uma mulher de cabelos black power com o logotipo da Bombril posicionado bem em cima dos cabelos, tudo sobre um fundo amarelo que obviamente faz lembrar a embalagem, não é bem a ideia do que desejamos encontrar quando buscamos por identificação.


image


Supor que a comparação entre cabelos crespos e a palha de aço seja elogiosa é no mínimo ingenuidade. Quem teve ou tem o cabelo comparado a bombril sabe que a intenção nunca é positiva.

A polêmica poderia ter sido maior, mas se já há uma tendência em abafar ou desconsiderar a reclamação das minorias, muito maior é essa tendência quando se trata do protesto de uma minoria que fica dentro de outra.

E muito se falou em histeria (minoria expressando um incômodo que incomoda = histeria), exagero e patrulha, mas curiosamente nada se perguntou a quem foi ofendida: “O que sentiu ao ver a imagem? Acredita que seja necessária a ressignificação do ‘termo’ bombril? Gostaria que isso fosse feito ou prefere a dissociação total?”


image

Não, o meu CABELO não é palha de aço. Ele é minha identidade, minha referência. Repudiamos o programa Raul Gil e a Bombril pela arte do programa “Mulheres que brilham”.
A BOMBRIL tem que PARAR de comparar o cabelo das mulheres negras a lã de aço. O meu cabelo crespo É a revalorização da minha ancestralidade africana recriada no Brasil.
PELA VALORIZAÇÃO E RESPEITO AS MULHERES NEGRAS BRASILEIRAS
” - Imagem e texto que circularam no Facebook. Não sabemos a autoria.



Aos que disseram que objetivo era a ressignificação, deixamos a pergunta: como isso poderia de algum modo ser benéfico? Consideramos a tentativa e a intenção uma grande falha, um retrocesso. Num país com overdose de progressivas, essa pretensa ressignificação não traz benefício algum à luta pela conquista da identidade.

A Bombril foi infeliz nessa e trocou o logo, como podem conferir no site do concurso.


Por que ressuscitar esse caso do ano passado?


Porque Ronaldo Fraga, estilista, conseguiu ir além da Bombril. Ele não fez uma “sugestão”; ele autorizou o beauty artist Marcos Costa a tacar palha de aço na cabeça de modelxs para “homenagear” o futebol (?).


image

Imagem publicada pela Vogue


A coisa mais simples, que seria colocar pessoas negras na passarela, não passa pela cabeça desse pessoal.

Não gostou da “tendência”? Deixe a Vogue e Ronaldo Fraga saberem disso (@ronaldofraga e @VogueBRoficial no Twitter).


Ah, não esqueçamos a menção honrosa à Cadiveu, que também deu sua bola fora racista esse ano.


Sintetizando:

No caso da Bombril, a péssima associação dos cabelos com a palha de aço, um assunto tão delicado, é abordado sem nenhuma reflexão (pode-se imaginar que a falta de funcionárixs negrxs seja uma das causas disso).

Ronaldo Fraga nos homenageia com sua ignorância, seguindo a mesma linha da Bombril.

A Cadiveu apostou na agressiva sugestão da necessidade de alisar os cabelos, mostrando que é necessário um cuidado redobrado com a propaganda desse tipo de produto. Precisam aprender a anunciar cosméticos que alisam os cabelos sem (mais) racismo embutido.


Ronaldo Fraga, Bombril e Cadiveu: o que eles têm em comum? Certamente a necessidade de pensar mais antes de fazer.

Gillette deixa os homens irritados (até os que não usam as lâminas)

Sobre a propaganda da Gillette, “Quero ver raspar”, não resta muito a dizer. Só reiterar que não concordamos com a imposição de padrões de belezas para homens, de maneira alguma. Uma propaganda assim jamais representaria o feminismo. Não temos interesse de que a imposição se generalize cada vez mais.

Gostaríamos de ver as empresas anunciando seus produtos sem despertar a insegurança dxs consumidorxs, das pessoas. Que apelassem para a criatividade que desperta nossa atenção e não para a fraqueza humana de forma imunda.


image

Ilustração de Bi Anca


Naomi Wolf disse em O Mito da Beleza (1991):

Ajudar as mulheres a desestruturar o mito é, no entanto, algo do próprio interesse dos homens em um nível mais profundo. A próxima será a vez deles. Os anunciantes recentemente perceberam que o enfraquecimento da confiança sexual funciona seja qual for o sexo do consumidor. (…)

Alguns psiquiatras estão prevendo um aumento nas estatísticas masculinas de distúrbios da alimentação. Agora que os homens estão sendo vistos como um mercado virgem a abrir as suas portas do ódio de si mesmo, começaram a surgir imagens que dizem aos homens heterossexuais as mesmas meias-verdades, sobre o que as mulheres querem e como elas vêem, tradicionalmente transmitidas às mulheres heterossexuais a respeito dos homens. Se eles caírem nessa armadilha e ficarem presos, isso não será uma vitória para as mulheres. Na realidade, ninguém sairá ganhando.


Foi interessante ver a indignação de alguns homens com a propaganda, já que muitos dos que se indignaram são os primeiros a dizer que mulheres que não se depilam são nojentas. Esperamos que dessa experiência nasça um pouco de empatia.


image

Print de uma postagem escolhida aleatoriamente na página da Gillette


A página da Gillette está cheia de reclamações… seria bom se as pessoas que estão reclamando percebessem que precisamos nos unir contra esse tipo de publicidade.

Em tempo, o vídeo da propaganda deve ter custado caro e já virou referência de mau gosto.


Outras publicações sobre o caso Gillette:

Barriga tanquinho sem pelos, camisa de força pros homens?, texto da Lola.

Algumas reações dos homens na Feminista Cansada

Post do Nós Denunciamos no Facebook

Distopia, texto de Aline Valek no Facebook

Não acredite nas revistas (mesmo) - versão imã de geladeira

A Fabi M. enviou para nós essa foto de um imã de geladeira que ela encontrou para vender na feira da Benedito Calixto, famosa em São Paulo.

Ela contou que no meio de um monte de outros imãs, alguns até “maldosos”, havia esse lá. E assim a gente começa bem devagarinho a contrabalancear as mensagens negativas.





A semelhança não é mera coincidência.








Obrigada, Fabi! Ficamos muito felizes com a foto!

“Homens” são o padrão… até que apareça uma fralda para trocar



Uma observação sobre os papéis de gênero: geralmente nas imagens indicativas o padrão é a imagem que representa “homem”… até que apareça uma fralda para ser trocada.


Essa imagem foi retirada daqui, mas conhecemos através do tumblr Gorda! que posta várias imagens positivas sobre os corpos que são considerados fora do padrão.

E @s responsáveis por esse tumblr fazem um adendo: tampouco há gord@s nos letreiros indicativos. Já tinha notado?


Conheça também a página Gorda! zine no Facebook.

Celebre sua idade, sorria!



Celebre sua idade.

‘O único jeito de evitar as rugas é viver no espaço ou nunca mais sorrir.’



Mais uma linda imagem do Body Shop, que já apareceu por aqui.


Não poder envelhecer é mais um problema, principalmente para as mulheres. O que costumamos ouvir é que a aparência dos homens melhora com a idade e que o mesmo não ocorre conosco.

Era o que bastava para um investimento massivo na indústria de cosméticos que visa “renovar” nossa aparência.

A luta pela suavização das rugas é custosa e ingrata. Custosa porque os cremes que prometem diminuir as rugas custam caro e ingrata porque como a imagem diz, para não tê-las só vivendo no espaço ou deixando de demonstrar felicidade novamente.

Não podemos deixar que digam que precisamos parecer 10 ou 20 anos mais jovens. Tudo bem se aparentamos ter a idade que temos!

Devemos aprender a aproveitar cada fase. Apreciar a passagem no tempo, naturalmente, como deve ser.


Relembre:

Realidade, para variar

Eu, 10 anos mais jovem… por que?!.

LYBD tem que ser todo dia!

Agradecemos a tod@s que mandaram suas fotos para participar do LYBD 2012!

Sabemos que não é fácil. Amar nosso corpo é um exercício diário, e dos mais importantes

Vamos continuar recebendo fotos porque o Love Your Body Day tem que ser todo dia.




Clique na imagem para ver as fotos que recebemos!


Leia nosso texto sobre autoimagem das mulheres, inspirado pelo Love Your Body Day.


Fotos do Love Your Body Day 2012:

No Tumblr

No Facebook

No Pinterest

Love Your Body Day - Participe!!

Como muitxs já sabem, dia 17 de outubro é o Love Your Body Day, dia de celebrar seu corpo em sua diversidade, com sua singularidade, amando cada coisa que faz dele único e seu.

Nesse dia, o Machismo Chato de Cada Dia se une ao LYBD 2012 e mostra como o corpo humano pode ser bonito, poético, sensual, natural e feliz, sem precisar de photoshop ou submissão à qualquer padrão excludente que queira nos aprisionar em suas regras inalcançáveis.





Por isso, convidamos tod@s a enviarem fotografias de seus corpos, para celebrar o orgulho de ser quem se é.

Receberemos conteúdos no e-mail machismochato@gmail.com e publicaremos no tumblr e nossa página no Facebook.

Olimpíada do Machismo (parte 1)

Começaram os Jogos Olímpicos e com eles uma grande quantidade de não notícias avaliando a beleza das atletas. Um espetáculo de desrespeito com tod@s nós, mas principalmente com elas, mulheres que entraram na competição representando seus países após anos de esforço e resumidas a quilos a mais/menos, cabelos, sorrisos, e claro: bundas.

Não usaremos nenhuma dessas imagens para ilustrar a postagem pois são realmente ofensivas. Aliás, você já deve ter visto várias dessas imagens na página principal dos maiores portais. Mas você percebeu?

O Globoesporte.com foi além e ousou fazer a seguinte chamada: “Cardápio variado: veja as belas que roubaram a cena”. Cardápio? Usar “cardápio variado” para se referir a uma seleção de fotos de atletas de diferentes países? Usar “cardápio” para um “conjunto de mulheres”?




Clique na imagem para vê-la maior.


É, fizeram isso. A gente não consegue mais achar essa galeria, mas fizeram.

Logo nos primeiros dias dos Jogos aconteceram coisas como essa: “Chamada de gordinha, nadadora ouve pedido de desculpas de ministra”. A atleta australiana, que já têm várias medalhas olímpicas, foi bombardeada pela imprensa de seu país. Vários veículos de comunicação criticaram seu corpo como se ela estivesse ali para ter sua beleza avaliada por eles e apenas isso. Não, não são os Jogos Olímpicos. Para a imprensa as Olimpíadas são uma versão mais longa do Miss Universo.

Segundo essa notícía, a “Halterofilista australiana chama atenção por pelo na axila”. Uma coisa que só diz respeito a ela sendo debatida mundialmente. É a horrorosa polícia da depilação fazendo seu papel. A axila da atleta torna-se domínio público.




Imagem do post do site Jezebel. “Parece ótimo para mim.” (Para nós também.)


Já a ginasta norte americana teve o cabelo criticado. De gel a escova, as sugestões invasivas só evidenciam o preconceito que muit@s negam que existe. Chegaram a associar essas cobranças ao fato de ela “representar” o país. Que loucura é essa? E por que tamanha maldade com uma garota de 16 anos e consequentemente com muitas outras mulheres de todas as idades?

A primeira negra a ganhar medalha de ouro nessa modalidade está sendo notícia pelo cabelo. E assim, a Olimpíada do Machismo recebe seu toque de racismo, como não poderia deixar de ser.


Leia a segunda parte, Olimpíada do Machismo (parte 2)